Oportunidades do tempo (iii)

Quando uma pessoa, esvoaçando pela vida, se vê pousar sobre a chamada de uns outros olhos, de uma outra pessoa; tímida, esta ou aquela, um obstáculo inevitavelmente forma-se. De inicio apenas uma rajada forte que sopra ao tentarem aproximar-se. Mas passado o tempo transfigura-se em parede transparente, sentida só com a mente mas separando tanto como qualquer outra, anunciando um limite entre os dois, derradeira consequência de terem chegado ao limite do tempo.

É um percurso em que o tempo na sua rodagem mostra os tímidos a sonhar apenas. Pessoas que anseiam por se aproximar de outras: estar com elas, sentir a presença delas, ouvir a voz delas. E chamam-nas com os olhos, contentando-se em esperar, contentando-se em pairar entre sonhos e possibilidades, e não fazem nada.

Um percurso eterno, não por não ter fim, mas por não se deslocarem do seu começo.

Sonham, e deixam-se divagar. Nos sonhos, andam e andam, avançam com a vida, vendo novas caras, novas paisagens, em vontade rejuvenescida; ou recordando velhas amizades, velhos eventos, a vida passada, romantizada. Andam, porque sabem que qualquer momento as poderá levar mais próximas daquelas que anseiam ver. E nos sonhos aproximam-se, sentindo o conforto da presença tão desejada, enchendo-lhes o sentido da vida. Depois acordam.

Um sonho acaba sempre como começa: o seu fim é o regresso da realidade.

"Pois as coisas fazem-se: não fazendo nada, vão-se as oportunidades, deixando reles o doce rasto das ilusões! Fazer, para acaba-las; fazer, pois só assim se concretiza o que desejamos, e o sonho pára de ser ilusão - ou não se concretiza nada, e a ilusão pare também – agora antiquada, agora desgastada de toda a sua doçura. Assim, e que venha a próxima onda de ilusões. Não lhas será dado espaço para se acumularem em demasia, se algo nisto tudo atrevo-me a aprender, e não terão peso para me afundarem uma vez mais" nesta deambulação que é a vida por vezes.

Passadas as oportunidades do tempo,
Só sobra um vago rasto de ideias por completar…
Aí é tarde: acabou.
Poeira que com o tempo acaba por assentar.
Que cada um se contente com o que semeou.

E para quem o vento veio com uma nova oportunidade, não tendo o tempo ainda imposto as suas garras, é só decidir: não fazendo nada, e nada mais será esta oportunidade que uma outra recordação vulgar, destinada a cair num esquecimento mal venha uma outra, tempo depois, sofrimento depois. É só decidir:
- Quero-a, dou-lhe valor, por isso não a deixarei desvanecer-se em pó.


5 comentário/s:

  1. Diogo Silva

    Talvez a minha melhor contribuição para o blogue.

     
  2. fiwipa

    de todo o texto goxtei praticularmente desta frase :

    "Um sonho acaba sempre como começa: o seu fim é o regresso da realidade"


    =D

     
  3. Tiago Russo

    Quando leio a última frase deste post, só me consigo lembrar da parte mais emotiva da música "Bad, by U2", que passo a citar:

    This desparation, Dislocation
    Separation, Condemnation
    Revelation, In temptation
    Isolation, Desolation...
    Let it go

    ...And so fade away...

    Acho que se perceberá porquê :)

    Quando às restantes belas linhas deste post, deste texto, é arrepiante, simplesmente arrepiante, ver como em meia dúzia de palavras, expões todo um conjunto de almas a nu, a tua, pressuponho, pelo que sei e conheço :), mas não só. Estaria a mentir se dissesse que não me revejo nas tuas palavras. Faz parte da "nossa" mentalidade, tímida, passiva, espectante.

    É arrepiante ver o quão bem definiste tudo aquilo em que me revejo e corroboro, e ver e sentir que alguém conseguiu colocar de forma tão explicita essa mentalidade e ordem de acontecimentos. Se é a mais profunda e poderosa "oportunidade do tempo", será também a mais eloquente e carismática entrada desde... sempre neste, ou em qualquer blog que já tenha visitado, com respeito para todos os outros autores e autoras.

    Divinamente, e definitivamente, brutal. :)

     
  4. Diogo Silva

    Eh, chamas a este texto uma "meia dúzia" de palavras... =P Bem, talvez até tenhas razão, eu é que estou habituado a escrever textos pequenos, e em comparação a eles este foi decerto grande... =P

     
  5. Tiago Russo

    Vês como viste a ironia? ;)

    Anormalmente grande, declaradamente bom :D

     

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