Oportunidades do tempo (iii)
Published 03 setembro 2009 by Diogo Silva in Oportunidades, Recomeços, Sonhos, TempoQuando uma pessoa, esvoaçando pela vida, se vê pousar sobre a chamada de uns outros olhos, de uma outra pessoa; tímida, esta ou aquela, um obstáculo inevitavelmente forma-se. De inicio apenas uma rajada forte que sopra ao tentarem aproximar-se. Mas passado o tempo transfigura-se em parede transparente, sentida só com a mente mas separando tanto como qualquer outra, anunciando um limite entre os dois, derradeira consequência de terem chegado ao limite do tempo.
É um percurso em que o tempo na sua rodagem mostra os tímidos a sonhar apenas. Pessoas que anseiam por se aproximar de outras: estar com elas, sentir a presença delas, ouvir a voz delas. E chamam-nas com os olhos, contentando-se em esperar, contentando-se em pairar entre sonhos e possibilidades, e não fazem nada.
Um percurso eterno, não por não ter fim, mas por não se deslocarem do seu começo.
Sonham, e deixam-se divagar. Nos sonhos, andam e andam, avançam com a vida, vendo novas caras, novas paisagens, em vontade rejuvenescida; ou recordando velhas amizades, velhos eventos, a vida passada, romantizada. Andam, porque sabem que qualquer momento as poderá levar mais próximas daquelas que anseiam ver. E nos sonhos aproximam-se, sentindo o conforto da presença tão desejada, enchendo-lhes o sentido da vida. Depois acordam.
Um sonho acaba sempre como começa: o seu fim é o regresso da realidade.
"Pois as coisas fazem-se: não fazendo nada, vão-se as oportunidades, deixando reles o doce rasto das ilusões! Fazer, para acaba-las; fazer, pois só assim se concretiza o que desejamos, e o sonho pára de ser ilusão - ou não se concretiza nada, e a ilusão pare também – agora antiquada, agora desgastada de toda a sua doçura. Assim, e que venha a próxima onda de ilusões. Não lhas será dado espaço para se acumularem em demasia, se algo nisto tudo atrevo-me a aprender, e não terão peso para me afundarem uma vez mais" nesta deambulação que é a vida por vezes.
Passadas as oportunidades do tempo,
Só sobra um vago rasto de ideias por completar…
Aí é tarde: acabou.
Poeira que com o tempo acaba por assentar.
Que cada um se contente com o que semeou.
E para quem o vento veio com uma nova oportunidade, não tendo o tempo ainda imposto as suas garras, é só decidir: não fazendo nada, e nada mais será esta oportunidade que uma outra recordação vulgar, destinada a cair num esquecimento mal venha uma outra, tempo depois, sofrimento depois. É só decidir:
- Quero-a, dou-lhe valor, por isso não a deixarei desvanecer-se em pó.

Talvez a minha melhor contribuição para o blogue.
de todo o texto goxtei praticularmente desta frase :
"Um sonho acaba sempre como começa: o seu fim é o regresso da realidade"
=D
Quando leio a última frase deste post, só me consigo lembrar da parte mais emotiva da música "Bad, by U2", que passo a citar:
This desparation, Dislocation
Separation, Condemnation
Revelation, In temptation
Isolation, Desolation...
Let it go
...And so fade away...
Acho que se perceberá porquê :)
Quando às restantes belas linhas deste post, deste texto, é arrepiante, simplesmente arrepiante, ver como em meia dúzia de palavras, expões todo um conjunto de almas a nu, a tua, pressuponho, pelo que sei e conheço :), mas não só. Estaria a mentir se dissesse que não me revejo nas tuas palavras. Faz parte da "nossa" mentalidade, tímida, passiva, espectante.
É arrepiante ver o quão bem definiste tudo aquilo em que me revejo e corroboro, e ver e sentir que alguém conseguiu colocar de forma tão explicita essa mentalidade e ordem de acontecimentos. Se é a mais profunda e poderosa "oportunidade do tempo", será também a mais eloquente e carismática entrada desde... sempre neste, ou em qualquer blog que já tenha visitado, com respeito para todos os outros autores e autoras.
Divinamente, e definitivamente, brutal. :)
Eh, chamas a este texto uma "meia dúzia" de palavras... =P Bem, talvez até tenhas razão, eu é que estou habituado a escrever textos pequenos, e em comparação a eles este foi decerto grande... =P
Vês como viste a ironia? ;)
Anormalmente grande, declaradamente bom :D