Enquanto escrevo

Uma ténue luz dourada revela na escuridão a secretária de madeira encostada à parede. Neste pequeno espaço de luz pairam ideias como borboletas. Ou sobrevoam irritantes como moscas ou perdem-se no escuro, no esquecimento.

Eu vejo-me entretido a apanhá-las e prende-las com palavras.

Na folha do meu caderno, à medida que vou escrevendo, as ideias apanhadas manifestam-se e expandem-se para além da luz, libertando criaturas de todas as diversas formas e cores para o escuro, voando em direcção a uma paisagem mítica de mármores flutuantes sobre densas florestas e cidades nos céus deixando fluir para os verdes em baixo eternos azuis de água, cintilando como estilhaços de vidro quando das nuvens os raios de sol se rompem por momentos.

Esta paisagem pinto-a atrás de mim. Não a consigo ver com os olhos, pinto-a com a imaginação. E construo-a com as ideias que fluam com as palavras, e ouço-a.

A folha branca das nuvens e da imaginação deixa cair esta maré de palavras para as linhas em baixo, desabando numa a uma, como se cascatas sucessivas, e cada vez mais me afundo neste mar. A luz do candeeiro mantém acesa na brancura das folhas o brilho das palavras que faz acender na minha imaginação estas ideias, e fluindo de página em página mantêm-se vivas as ideias, para serem vividas.

Chego ao fim deste desenho de ideias, e abandono o quarto num silêncio de repouso.

No fim, as criaturas de diversas formas e cores continuam a voar pela paisagem e a descobrirem novos recantos e lugares únicos, mesmo quando a luz do candeeiro se desvaneceu e as florestas, as cascatas, e os mármores e as cidades nos ares juntaram-se à escuridão do quarto, num esquecimento.


7 comentário/s:

  1. Tiago Russo

    Em quatro palavras:

    Discernimento da Criação Artística.

    É um tema filosófico, se bem que não vou abordar grandes filosofias aqui: é um óptimo exercicio, ou de inspiração, ou de reconhecimento da "ideologia das ideias", soa a redundancia, mas...

    Só por curiosidade: Afinal sempre te deu o "vipe" de escrever em «modo» impressionista / expressionista xD.

    É bem :)

     
  2. Diogo Silva

    Quando se quer escrever mas não se tem tema, este tipo de histórias vem a calhar. É semelhante a escrever um texto lírico, e acaba por ter uma função semelhante também.

    Não sei se tem muito impressionismo. Mas é surrealista, creio eu, no sentido que misturo realidade/ sonhos, e deixo-me levar pelo que me vem à cabeça, mas não posso dize-lo com certeza, já que ainda não sei muito bem como o surrealismo se aplica à literatura. E tem alguma influência do minimalismo (mas isso quase todos os meus textos têm tido) na maneira que muitas vezes opto por frases simples, claras e directas.

     
  3. Tiago Russo

    Hmm... Creio que estará demasiado "soft" para ser surrealista, está demaisado "leve", utilizando aqui uma metáfora pouco rigorosa, lol.

    Mas o que é engraçado é que não se está a comentar este texto pelo conteúdo, mas sim pelo estilo...

    Será este o início de um ensaio para uma obra "maior"? :P

     
  4. Diogo Silva

    Este texto está todo demasiado soft. O minimalismo não costuma ser assim tão subjectivo, surrealismo não assim tão soft, e não sei se precisava de um pouco mais de emoção ou sensações para ser impressionista ou se está bom assim. Tem um pouco de cada sem se prender demasiado a todos esses estilos, à excepção do estilo expressionista.

    A maior parte do conteúdo é basicamente uma descrição um pouco abstracta e fantástica da minha imaginação enquanto escrevo (se bem que falo de mim, mas creio que se possa aplicar a qualquer pessoa). Depois acabo de escrever, paro de pensar nas minhas ideias ("juntam-se à escuridão/ num esquecimento"), mas as mesmas continuam a desenvolverem-se ("descobrirem novos recantos"), significando talvez o subconsciente?

     
  5. Tiago Russo

    Certamente que aí existe uma "clara" entrada num subconsciente... Agora, permite-me discordar numa coisa.

    Quando dizes que falas de ti, mas crês que se pode aplicar a qualquer pessoa, creio sinceramente que não funciona assim. E mais uma vez remetendo para o "Discernimento da Criação Artística", tudo depende das movimentações de uma chamada "inspiração" que movem cada um de nós. O teu processo artístico pode ser (e é) bem diferente do meu, e certamente que o será de muita gente, tanta como aquela que não verá essa fantasia no seu processo criativo, escrita, ou não :)

     
  6. Diogo Silva

    Sim, eu fiquei com essa duvida quando escrevi aquilo. Altero-a para: pode-se aplicar a mais pessoas.

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    Por mais estranho que pareça, creio que este texto possa ser considerado realmente uma historia.

    Tem um espaço físico e psicológico, descritivos até a um certo ponto. Tem um personagem que faz duas acções (escrever e deixar de escrever), cada uma com consequências. Tem uma temática (a imaginação) que se conclui no final.

     
  7. Tiago Russo

    Deves querer bater algum record de comments, tu... xD.

    E sim,pode serconsiderado uma história, "estás à vontade" para o fazer xD.

    Mas também pode ser considerada uma reflexão psicanalitiva, uma vez que transpões para texto uma interpretação (ainda que fantasiosa em certos pontos) da tua mente.

    Também pode ser uma mera reflexão acopolada, ou uma mera divagação de espelhamento...

    Dás-lhe o nome técnico que bem entenderes xD.

     

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